sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Saudações à Nação

O Tuninho é um operador de escavadeira, casado, tem um enteado e mora numa casa simples, de aluguel, no interior e que, casualmente, estava sentado ao meu lado em uma das topiques que faz o transporte de Aracaju ao interior do estado. Como ele levava um adesivo com o escudo do Flamengo nas caixinhas de som do celular que ele mesmo armengou* acabei puxando conversa.

Durante o papo ele me contou que normalmente consegue bons trabalhos na capital e fica com a família nos fins de semana. Tira uns R$900 líquidos por mês, que tem que dar conta de aluguel, comida, transporte e pequenas diversões, como tomar uma cervejinha no boteco e ir prum forrozinho de quando em vez.

Como o assunto tinha começado pelo escudo do Flamengo, a prosa tomou esse rumo. Ele me contou da sua paixão, de como as cidades do interior ficaram tomadas por carreatas e festas pela conquista do Campeonato, que ele não conseguia acreditar e entender de onde haviam saído tantos Flamenguistas e também me contou do seu orgulho de ter comprado não uma, mas duas camisas oficiais.

E aí comecei a ter uma noção do amor que as pessoas tem pelo seu time.

Tuninho, que recebe dois salários mínimos por mês, pagou, sem pestanejar, um terço de seu salário para comprar duas camisas oficiais do Flamengo que seriam sua lembrança da façanha do hexa campeonato. Um terço de seu salário!!!

Meu pai me levava ao Maracanã desde os três anos de idade. Eu tinha até uma carteirinha de menor torcedor que era exigida na época para que freqüentasse o estádio. Das seis finais de Brasileirão que ganhamos, estive em três, inclusive muito próximo de cair da arquibancada na final de 92 com o Botafogo quando parte da grade cedeu e alguns torcedores despencaram.

Assisti a guerra da final da Libertadores onde um de nossos maiores heróis, Anselmo, entrou em campo no final da partida, apenas pra dar um cruzado e nocautear um jogador adversário que vinha jogando com uma pedra na mão. Lavou nossa honra. É, isso ainda existe !!!

Festejei de madrugada o título mundial em 81.

Fui inúmeras vezes ver o Zico e nossos jogadores Flamenguistas de verdade no Maraca...

Amo meu time de paixão, como creio que todos os brasileiros que gostam de futebol também amam os seus. Trocamos de emprego, cidade, mulher, carro, mas nunca trocamos de time. Isso é inaceitável pra um brasileiro.

Quando nos embrenhamos pelo interior do Nordeste, algo como tentar entender que alguém que mora num casebre, não tenha água corrente e se esforça pra manter a família com dois salários mínimos paga, com prazer, R$300,00 em duas camisas oficiais, é quase incompreensível, inexplicável.

Andando por aí sempre me deparei com o amor que os Flamenguistas tem pelo time e como isso está espalhado e arraigado em cada estado onde os times locais não são, ou não eram, competitivos suficientes. Claro que isso se deveu à Rádio Nacional, que transmitia os jogos da capital do país, o Rio de Janeiro, ajudando a expandir essa paixão e também ao fato que na época de ouro do Flamengo, ganhando um mundial, uma Libertadores e três campeonatos brasileiros em quatro anos, coincidiu com o momento que as Tv´s começavam a transmitir os jogos ao vivo para todo o país.

Vejo carros pintados de preto e vermelho, bares, bicicletas, todo o tipo de indumentária e pessoas gastando o pouco que tem pra ter algo que mostre aos amigos e a família que ele faz parte dessa grande nação, da maior nação torcedora de um time de futebol no planeta – a Nação Rubro Negra.

A paixão dessa nação me surpreende.

E o clube, como o povo, continua pobre.




* armengar – montar, improvisar

3 comentários:

Simone Taylor disse...

O Flamengo consegue superar a regionalidade essa coisa de voce torcer pelo time da sua cidade. O mesmo acontece aqui com o Manchester United a diferenca eh que o Manchester eh amado por "outsiders" e detestado pelas pessoas de Manchester, ou pelo menos pela maioria delas, e o Flamengo eh um time como o Brasil, eh amado, mesmo que secretamente, ate por torcedores de outros times, como eu, menos pelos Vascainos, eh claro, o Flamengo eh como o Brasil, voce ve Europeus vestidos com a camisa do Brasil com orgulho, ate aqui na Inglaterra, se alguem veste a camisa da Inglaterra eh Hooligan, se veste a do Brasil eh cool! Flamengo eh Brasil, e olha que eu nem sou Flamenguista, ja tentei remediar isso mas como voce disse Brasileiro nao muda de time...

Bobby disse...

Rapaz, voce está certo. Eu não tenho com discordar que o Flamengo tenha uma grande torcida. Porém a mais apaixonada é a do meu time. O Eterno Tricolor de Aço...O BAEAAAAAAA!!!! Não há torcida no mundo que tenha o amor que nós tricolores temos pelo nosso Bahia! E tenho dito!!!!

Anônimo disse...

Mas e o bruno hein....