domingo, 10 de outubro de 2010

23 anos depois...

Durante a década de 70 visitava a cidade com freqüência com minha família, vínhamos frequentemente em grandes feriados e Natal para a casa de parentes. A viagem era longa e muitas vezes tínhamos que parar e dormir em algum hotel de estrada, afinal eram mais de 400km de estradas sinuosas em mão dupla, com média de velocidade inferior a 40km/h em um Fusquinha ou mesmo num velho Corcel – na época novo.

Havia a parte romântica, pois parávamos em cidades históricas no caminho. Havia curiosidades como a primeira vez que comi um típico pão de queijo que ainda não era industrializado, no subsolo de uma casa em Barbacena, próximo a estrada, onde a própria dona preparava a massa e o fazia na hora. Tenho lembranças dos primeiros amassos com minha prima no banco de trás do carro enquanto meu pai dirigia e minha mãe dormia e não via - ou fingia que não via e, já com 21 anos, a viagem de diversão com meu “irmão”... “Alagados, Springstown, Favela da Maré, a esperança não vem do mar...” era o lançamento do Paralamas na época... fomos curtir os bares da cidade e encontrar um primo que ainda mora por lá e na época era meio, ou muito, louco para ver pegas de moto e de carros.
Pois é....23 anos depois volto a visitar a cidade.

A sensação que me passa deve ser a mesma que nossos pais e avós têm ou tiveram quando voltaram às suas cidades depois de várias décadas. Sempre pensei que não fosse ver tão grande diferença e desenvolvimento como eles viram, que nasceram numa época onde mal se pegava o sinal de rádio e agora vivem na era da internet banda larga, que nasceram numa época onde carros eram poucos e raros e agora vivem em cidades “atopetadas” de veículos; onde uma viagem pra Europa era coisa de milionários e hoje podemos ir facilmente em férias e até em um feriadão curtir uns dias.

Fiquei quase dez anos sem ir a Salvador e fiquei impressionado, mas....23 anos sem ir a BH me impressionou muito mais. Com exceção da parte que já era a mais desenvolvida da cidade como o alto da Afonso Pena com Mangabeiras, Cruzeiro, Serra, toda a cidade se expandiu de uma maneira impressionante. A região das Seis Pistas em Nova Lima onde íamos assistir aos pegas, está lotada de prédios, condomínios, shoppings e tudo mais que é desnecessário enumerar para o que esperamos de uma cidade com mais de 2,5 milhões de habitantes. Mas certas coisas não mudam nem com o tempo: o mineiro é de uma hospitalidade impressionante; seu jeito quieto de lidar com o dia a dia, que é típico de um povo que precisava manter o silêncio na época da mineração e não espalhar que havia encontrado ouro ou diamantes já que o risco de ser morto ou roubado e ainda altamente taxado pela Coroa Portuguesa era enorme e, não posso esquecer da mulher mineira, que não consigo entender qual a razão de serem tão lindas e simpáticas além de terem aquele sotaquezinho delicioso.

Imagino agora o que ainda virá. Como estarão as cidades que conheci pelo Brasil e pelo mundo todo nos próximos 10, 20 anos. E isso só ajuda ainda mais a desenvolver meu prazer por viajar, conhecer novas e visitar velhas conhecidas, que é muito parecido com fazer novos amigos e reencontrar os velhos, que como as cidades, apesar do tempo passado, ainda guardam na sua essência a personalidade e o estilo de cada um.

2 comentários:

Lu Campello disse...

Nossa! De alguma forma tem a ver com o que eu escrevi hoje sobre a mistura de sentidos. Quando você teve essa lembrança, deve ter sentido o cheiro do pão de queijo. E quando lembra da música do Paralamas é porque os momentos guardam neles seus sons. E quanto às mudanças... Lembro de Arraial D'Ajuda quando a graça era viver descalça pelas ruas e danem-se as poças e o risco de bichos do pé. O dia e a noite eram passados com a mesma roupa de praia (se arrumar pra que...). Banho entre uma lambada suada e outra, podia ser de mar mesmo. Depois de anos, eu volto e vejo "gatchenhas" emperequetadas de sandália plataforma, ruas asfaltadas, "night" forte e muito cuidado pra não suar demais e esculhambar o visual. É... as coisas mudam. Podem se modernizar, mas muitas vezes perdem seu encanto...

Flor de cactos disse...
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