segunda-feira, 25 de maio de 2009

Ixperteza

Rio de Janeiro, março de 2009

Foram dez anos morando fora do Rio. Dez anos passados em cidades brasileiras que prezam pela educação e pela civilidade, como Curitiba e Florianópolis. Claro que não tão organizadas, limpas e educadas quanto à maioria das cidades do Velho Continente, mas ainda assim um exemplo de comportamento para o resto do Brasil.

No início do ano voltei a morar no Rio, num apartamento que tenho na Tijuca, onde até recentemente morava minha irmã antes de falecer. Minha vontade e a curiosidade de voltar eram grandes, afinal muitos amigos ainda tenho por aqui, as praias onde fui criado, o ambiente de Ipanema, das caminhadas pela orla principalmente no domingo pela manhã, a cerveja no Baixo Gávea, a corrida na Lagoa, os jogos do Mengão no Maraca, os amigos do Jardim Botânico, além claro de toda a beleza da natureza, das montanhas e do mar.

Agora, estando aqui todos os dias, analiso o comportamento carioca com uma visão de quem nasceu e viveu por aqui por 32 anos, que conviveu com o esse comportamento, mas que por ter estado fora durante esses dez últimos anos desenvolveu uma visão, digamos assim, imparcial, e percebi detalhes que não teria percebido se nunca houvesse morado em outras cidades e outros países. O que mais me incomoda aqui é que, em qualquer momento, sem descanso, o carioca em geral está pensando em como posso tirar vantagem dessa ou daquela situação - tenho sempre a impressão que serei passado pra trás em algum momento – os ixpertus já vão dizer: é porque tu é “pato”. Acho que isso é histórico: quando estamos numa fila longa tem sempre alguém “tentando encontrar um amigo”; se a fila é curta tem sempre alguém “desapercebidamente” tentando furar; se estamos no trânsito e a curva pra direita está engarrafada os carros começam a cortar pela esquerda e tentar se enfiar láááá na frente; quando o sinal (semáforo, sinaleira) está para fechar em um cruzamento engarrafado, o carioca acelera pra cruzar antes que feche para ficar na frente dos que vão vir do outro lado, sem pensar que estará fechando o cruzamento e bloqueando o trânsito. E isso é o tempo todo.

O Guarda Municipal vê a infração, mas como “não é de sua alçada” o infrator fica impune, assim ele finge que faz seu trabalho, ficando ali, naquela esquina, parado fingindo que trabalha enquanto conversa com os amigos, com as mulheres que passam ou com outros guardas.
O Polícia Militar finge que policia, passeia com sua patrulha pela cidade, liga a sirene dando a entender que persegue algum suspeito pra poder avançar o sinal ou para correr desnecessariamente no meio de um engarrafamento, estaciona em qualquer lugar, pois, afinal, está "policiando".
Os Legisladores fingem que legislam, enquanto na verdade estão ali na câmara municipal ou na assembléia estadual apenas defendendo os próprios interesses.
E a pergunta é a seguinte: se estivéssemos no lugar deles, faríamos diferente? Talvez respondamos que sim, mas no momento, no dia a dia do trabalho será que também não nos deixaríamos envolver?

O grande problema é que um tira vantagem e ganha em cima do outro, e esse sistema contínuo, se transforma num ciclo “pernicioso” e no final o outro acaba tirando vantagem em cima do um, e essa relação ganha-perde, se transforma em uma perde-perde onde poderia ser uma relação ganha-ganha, pois a energia gasta bolando maneiras de se dar bem poderia ser usada em bolar maneiras da sociedade como um todo evoluir o que seria benéfico a todos, sem exceções.
Todos querem levar vantagem e todos acabam perdendo e o ganho se torna momentâneo naquela situação, mas em outra onde você não domina, ou não tem o poder ou o conhecido certo, você acaba perdendo. Esse é o círculo vicioso que deteriora todo o Brasil, mas principalmente o Rio de Janeiro.
O brasileiro vive de burlar regras, só pensa nas vantagens individuais e nunca no coletivo.

E o carioca acha que é ixpertu !!!


Se o Brasil é o país do jeitinho, o Rio é a capital da ixperteza !!!

4 comentários:

Kat disse...

generalizou. naum e um mau carioca, e um mau humano.

Juliana de Souza disse...

Fala Fred! Tá lembrado de mim? A gente se conheceu em Brasília, no Café da Rua 8. Eu também sou carioca e já escrevi no meu blog sobre as coisas que me deixam triste toda vez que vou ao Rio. Mas, não sei se isso é "coisa de carioca" não... o trânsito em SP, por exemplo, é uma loucura e bem pior que o do Rio, com motoristas fazendo o que vc descreveu e até pior, porq ficam se xingando, gritando, buzinando... Em Brasília, as coisas acontecem como vc disse, nas filas e em tudo o mais. Sabe porq? Porq isso é coisa de brasileiro. E, se vc diz pra mim que no sul vc nao vê essas demonstrações de "incivilidade", por outro lado, por lá eu já vi bastante demonstrações de, por exemplo, xenofobia, homofobia, e outros preconceitos, qndo no Rio as diferenças são muito mais toleradas. Sinto que o que falta é um choque de realidade em todo o país, porq o avanço da vida urbana, vai tirando aos poucos a sensibilidade das pessoas.. É assim que eu vejo. ;) Bjs

Charlotta Emigrante disse...

Eu acho que é para generalizar mesmo. Não é só no rio que existem os ixpertos, nem somente no Brasil. Existem por todo o lado, o ser humano é assim, tem esse instinto natural de sobrevivência que por vezes é mais ou menos forte, consoante a nossa necessidade, onde estamos e quem influenciamos/enganamos... Penso mesmo que por vezes nem nos damos conta de quão ixpertos estamos sendo...

GRK ESCREVE, EDITA E DIVULGA NA INTERNET disse...

Caro Fred Mourão,
Gostaria de lhe confidenciar que eu nasci de novo,e,foi,exatamente,da forma que foi dita a Nicodemos, lembra? Há cerca de 2000 anos atrás, em Jesusalém, Jesus disse a ele, "necessário vos é nascer de novo", estaremos conversando sobre este assunto adiante,mas veja:
http://grkservo.blogspot.com/